"Hello, Darkness, My Old Friend".

terça-feira, 26 de abril de 2011

Coqueiros.

"- Vocês vão ter que dar um jeito de se encontrar nas férias, terão muito o que adiantar para Agosto".

Foi assim que falou meu professor de Redação Publicitária, na aula de ontem. E eu, que naquele momento estava distraída (pensando no boato que vi na Internet, sobre a Melissa Glam Vilãs Disney ser relançada na próxima coleção), eu dei um suspiro daqueles bem longos.
Adeus, Julho cheio de redes que o vento embala nos alpendres, conversas cheias de risadas, calor estorricante, carne de sol e doce de leite.

CENA (OCORRIDA MUITAS VEZES, NUNCA RELATADA)

Uma hora da tarde, com muito esforço, percorro lentamente a pouca distância a separar a casa de Isaura da minha. É perto, mas, debaixo daquele sol, parece uma maratona. A água de coco que acabei de beber, porém, paga o cansaço.
Na minha casa, há muitos coqueiros. Alguns são baixos, permitem a colheita sem o auxílios de escadas ou varas. Na propriedade de Isaura, os coqueiros são da mesma espécie que os meus, e a terra em que são plantados é, rigorosamente, a mesma. Ainda assim, os cocos de lá sempre me pareceram mais gostosos, a doçura da água deixa na boca uma espécie de ardor que faz estalar a língua. Indescritíveis.
Para completar, desfruto da companhia de Chico Leão - para dizer o mínimo, um cabra macho, homem com tamanha firmeza de caráter só o sertão é capaz de produzir. A casa deles é quase uma extensão da minha: pai deita no chão, eu me farto de uma variedade de doces (o de siriguela, eu nem sabia da existência!), me aproveito dos esmaltes de Suana, até já caí na sala deles milhares de vezes, certa feita quase quebrei o queixo, Isaura ri até hoje.
Volto pra casa feliz, depois de tanta água, morta de preguiça e de calor. Na claridade absurda, minha casa surge como uma miragem, parece não chegar nunca. Casualmente, Mãe aparece na janela e diz:
- Minha filha, você está um carvão!
E estou. Meu corpo tem marca até da tornozeleira.
Já entro no alpendre descalça, os pés tocando a frescura reconfortante do piso. Rede ou cadeira de balanço? Oscilo. Rede. O livro já está lá dentro, afasto-o e me acomodo, descansando a vista na plantação de palmas, ouvindo ao longe o chocalhar do gado.
- Eita vida boa aperriada.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quase.

É um Blog destinado a tratar só de um assunto: o PREX (juro que nunca mais vou querer ouvir o som desta quatro letras quando terminar esta tarefa). Mesmo assim, eu nunca mais falei do trabalho propriamente dito. Logo, vocês podem concluir que eu estou mais tranquila.

- Mais tranquila?

(Hesito; gaguejo):

- É, quase.

Para ser franca, esta semana foi uma das mais sossegadas, desde o início das atividades relacionadas ao Projeto. Sei que podia adiantar o quanto possível algumas etapas, ler algumas matérias relacionadas ao assunto, enfim. Mas, entendam: EU PRECISO SABOREAR A TRANQUILIDADE! Nem imaginava que ainda fosse capaz de ter essa sensação.

Aproveitei esses últimos sete dias para ler Tieta do Agreste - Pastora de Cabras. Fiquei muito triste. Santana do Agreste (cidadezinha do litoral baiano onde é passada a narrativa) me relembrou a beleza incomparável da vida no interior nordestino. Beleza que eu não vou tentar descrever por um só motivo: tal descrição é impossível, ninguém pode se atrever a falar sobre este assunto através de simples artigo, é sandice.
Mas, se quiser saber, pegue suas tralhas e corra pra lá, saberá qual é o nó que subjuga língua e pensamento e impede a descrição precisa dos aspectos daquela terra.

(Sim, sim, sou uma provinciana e disso muito me orgulho).

Pois é, esta semana eu me empenhei para ficar despreocupada - esforço que, naturalmente, já descaracteriza a minha suposta tranquilidade.
Nem as provas atrapalharam minha beatitude. Nunca estudei para nenhuma prova e não foi desta vez que violei esta regra que sigo cegamente, é uma das poucas.
Mas, ao menos, resolvi dezenas de palavras cruzadas, fui ao cinema, dei muita risada com tia Ângela e com Ricardo, comecei a leitura do primeiro tomo de "Os Irmãos Karamázov" e acordei tarde todos os dias.
Por falar nisso:

Trrrrm, trrrrmm, trrrrrrrrmmm... "slip inside the eye of your mind"...

Acordo devagar, estava tão bom o meu sonho! Que, na certa, era com alguma gulodice - emagrecer é terrível. Atendo:

- Ooooi, Pai!
(disfarço, mas sei que ele vai perceber a voz de sono).

- Faaaala, Nega! Dormindo?

Mesmo com todos esses quilômetros de distância, sinto o ar de gozação dele. São quase dez horas da manhã. Fico com vergonha de confessar minha vagabundagem e respondo, reticente:

- Ééé, mais ou menos.

- Nega safada!
(assim disse Pai, e deu sua risada irresistível).



É, "amanhã é outro dia!", já falava o açougueiro (coincidência?) de um livro delicioso do Domingos Pellegrini.
E eu concordo.



Loas.

Gente! O Diário de um PREX ganhou um artigo inteirinho no Blog de Altaneira. Não vou colocar o endereço aqui na postagem, se você quiser passar lá (e eu indico), basta clicar no link ao lado, nas minhas recomendações.
Foi a primeira vez que fui assim citada e recomendada. Senti uma vontade irrefreável de escrever um artigo especial para o administrador do Blog de Altaneira. E o fiz, na Biblioteca lotada onde era quase possível tocar a azáfama e a urgência dos estudantes às portas das avaliações bimestrais.
Antes de publicar este artigo, enviei o texto para a aprovação do tal administrador do Blog que me citou; ele gostou, a publicação está autorizada.
(Achei melhor perguntar antes se podia ou não podia postar, ele é advogado, vocês sabem como é essa gente).
Eis o que escrevi:

Doutor, Doutor... Não queira me fazer chorar, olhe que eu já estou à beira da desidratação. Não poderia deixar de registrar uma das maiores alegrias relacionadas ao meu dramático Projeto Experimental: a visita, leitura e elogio recebidos de Raimundo Soares Filho. Não farei maiores apresentações, seria preciso dizer muito sobre este senhor - e a postagem ficaria longa demais e cansativa.
Sinceramente, eu não mereço nenhum dos louvores que ele tece a meu respeito, muito menos um artigo só para mim no blog (excelente) dirigido por este advogado caririense. Blogueiro; twiteiro; fundador de moto clube; casado com uma das minhas mais competentes ex-professoras; pai da Alana (que também estuda Comunicação); para mim, eternamente, Doutor: assim ouvi tantas pessoas se referirem a ele, assim passei também a designá-lo.
Meus cinco sentidos são tarados pelo Nordeste. E este é um dos motivos que fazem com que eu me orgulhe desse homem e de receber sua aprovação.
" - Seja lá o que você pretenda fazer, seja qual for o seu sonho - que seja pela sua terra. Você é daqui" - assim já disse tantas vezes minha mãe, para mim e para muitos outros. E eu sei o quanto o Nordeste precisa de gente que pense dessa maneira. E assim é você e a sua família inteira, Doutor, seria até injusto não estender o louvor aos demais. "Faça pela sua terra, minha filha", diz Mãe, e vai ganhando adeptos.
Há muito tempo eu já devia ter cometido estas palavras. Atraso que podemos desprezar, já que o tempo passado só fez aumentar o meu apreço pela sua figura.
Temo que este artigo não chegue para fornecer a medida da minha admiração, nem do quanto sou grata pela alta conta em que você me tem. Afinal, sou só uma aprendiz, sei muito pouco e de menos ainda me sinto capaz.
Mesmo assim, tentei, espero ter acertado. Não por méritos próprios - estes pouco significam. Mas por você, que entenderá minha intenção.
E era isso.


Era isso, leitores. Era isso, Doctor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Serão.

Até que demorou. Mas essa foi a minha primeira noite varada por conta do PREX. Conversei com o meu contato da empresa que teremos como cliente (me sinto uma mulher de negócios falando assim, vou até repetir: Conversei com o meu contato da empresa que teremos como cliente) e cheguei em casa com milhões de idéias, coisas para lembrar, tópicos a escrever, dentro da minha cabeça se formava uma tempestade que ameaçava sair pelos meus olhos de pálpebras exaustas.
Quando amanheceu, eu ainda não tinha terminado. Às dez da manhã, cliquei em Salvar e fui até a padaria, com roupas e cabelos de ontem, uns e outros desarranjados e amassados. Os olhos imploravam para se fechar a qualquer pretexto. Ainda assim, o homem, tranquilamente sentado no seu degrau, disse:

- Carinha de cansada.

E eu devia mesmo estar péssima: mais além, na rua, a menina ainda de colo me apontou para a mãe e disse:

- Au-au.

Infâmia, me confundiu com um cachorro. Essas crianças de hoje não respeitam nenhuma circunstância.
Voltei para casa, tomei café e fiquei pensando. Como já fazia, tempos atrás, um poeta retado.

(Parêntesis: "- Carinha de cansada", o homem disse. Eu ri para ele, de surpresa e cansaço. Nessa rua, todos os homens de certa idade vivem querendo puxar conversa comigo.
Esse "de certa idade" designa modestamente esses tipos que por aí se chamam "tiozinhos" - esses indivíduos enxergam em mim alguma coisa que os mais jovens não percebem - afinal, a criança me confundiu com um cachorro, prova irrefutável de que a minha simpatia aumenta proporcionalmente à idade do meu observador).


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pensei.

Estava ali no quarto, trocando de roupa, e pensei:

- Quando era melhor? No começo do curso ou agora?

No primeiro semestre, eu tinha poucas preocupações, poucos trabalhos, a vida corria mansa. Em compensação, parecia que o quarto ano ainda ia demorar uma eternidade, eu me impacientava, chorava, contava os dias que faltavam para as férias. Ao menos, eu sabia que ia ter férias.

Agora, eu estou no quarto ano. Não vou mentir que passou rápido, pelo contrário - os dias se arrastavam, eram meses. Não lembro dos períodos com exatidão - os meus marcadores de tempo eram os livros que eu lia e os CD's de que estava gostando.
As preocupações, as angústias, a quantidade esmagadora de trabalhos - nada disso me afligia nos primeiros meses de aula, agora me consome incansavelmente, não me deixa ler em paz, não tenho tempo para procurar os CD's que queria. E eu nem sei se vou ter férias.

Mas é o penúltimo semestre - já é um consolo. O curso está perto do fim, mesmo que meu PREX seja reprovado (sou pessimista para comigo mesma, sou e pronto).

E eu me decidi. É melhor agora. Seja para sorrisos ou lágrimas, alegrias ou decepções, que acabe logo. É só o que eu peço.

domingo, 10 de abril de 2011

Convite.

- Mãe, parece que tudo dá errado.

Ela já disse as coisas de sempre. Que eu levo a sério demais, sofro sem necessidade, perco muito cedo as esperanças de um final feliz. E ela tem razão.

- Você sabe que consegue, minha filha. Nada nunca deu errado para você.
- E se dessa vez for diferente?

Um breve silêncio.

- Pega suas coisas e vem pra casa.

Surpresa congestiona o fluxo de palavras na minha garganta. De tantas que eu queria dizer, não saiu nenhuma.

- Se você não quer passar por isso, Leilinha, você não precisa.

Consigo desatar o nó, a custo.

- Mãe! Não posso largar tudo por medo de não conseguir fazer um trabalho bom! Nunca!
- Então, você já sabe o que fazer.

Sei, Mãe. Agora eu sei.

sábado, 9 de abril de 2011

Telefonia II

Quase na entrada da faculdade, os primeiros acordes de Shiver me sobressaltam.
- Oi, Mã.
(Não escrevi errado, não. É assim mesmo que eu falo).
- Oi, Mãe, que nada! É "Oi, Pai!".
- Ooooooii, Pai!
(Assumo que eu vivo chamando Mãe de Pai e Pai de Mãe, mas, desta vez, a culpa não foi minha: ele nunca me liga daquele telefone e nunca está em casa neste horário).
- Tudo bom, Nega?
- Tudo, Pai. E você? E a viagem?
- Foi boa. E minha filha?
(A insistência dos pais...)
- Estou bem, Pai, não precisa se preocupar.
(Minto descaradamente, sou uma ruína humana).

Trocamos mais algumas palavras.
Sei que Mãe está do lado dele prestes a lhe tomar o telefone. Ele decide passar para ela de uma vez:
- Fala aqui com sua Mãe.
- Oi, Mã.
- Oi, minha filha! Só queria te dizer que você é a filha mais amada do mundo, uma graça de Nossa Senhora, minha ninfa morena.
(Ninfa morena, às vezes ela me chama assim. Eu sei que é ridículo, não levem a mal).
Reflito que, qualquer dia, minha mãe vai entrar pelo telefone adentro. Tanta dedicação me comove. Não quero estragar o rímel, deu muito trabalho passar.
Fico na dúvida se peço a Melissa nova, resolvo pedir depois. Desista, PREX, não vou deixar de ser consumista por sua causa.

- Obrigada, Mã. Também amo você.
- Era só isso que eu queria te dizer. Boa aula.
- Tchal, Mãe.


Fiquei imaginando a cena:
(Minha Mãe, desligando o telefone, olhando para o céu tão claro que chega a doer a vista): Meu Deus, proteja minha filha!
(Meu Pai, olhando de esguelha, contrariado): Você nem me deixa falar com a menina!
Mãe olha para ele, suspira e entra em casa. Pai se encaminha lentamente para a rede, o piso do alpendre refletindo os últimos raios alaranjados do pôr-do-sol. Na copa das árvores, os passarinhos cantam desesperadamente.

Eu subo as escadas, avanço para as catracas. Hoje é sexta-feira, Amém!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Por Mares Nunca Dantes Navegados.

Seria ingratidão (muita ingratidão) se eu não escrevesse um artigo especial para o meu primeiro seguidor.
Este Blog começou há umas duas semanas, como um desabafo para as minhas aflições. Eu não queria incomodar ninguém com elas. Demorei um pouco até confessar que estava escrevendo estes artigos. Escrever é tão pessoal, como ter coragem de mostrar para as outras pessoas, expor suas palavras ao riso e ao descaso, tentar fazer com que terceiros sintam algo que só aflige a nós mesmos.
Por esses e outros tantos motivos, relutei antes de começar a divulgar a página, que ontem recebeu o primeiro (e gratificante) elogio - vindo do meu primeiro seguidor, honra que eu nem acredito merecer.
Como eu já disse mais de uma vez, aqui mesmo, esse PREX está sendo um poço de agonias que, volta e meia, são aplacadas por uma dádiva inesperada que me faz esquecer, por alguns minutos, todos os castigos que ainda me esperam nesta epopéia que mal começou. E que, infelizmente, custa a findar.
Nas últimas (ou penúltimas) férias, eu li A Divina Comédia, embalada pela rede e pelo vento que ameniza o calor do sertão. Mesmo não tendo a imaginação tão fértil, e sem as ilustrações de Doré para me ajudar a compor cenas e paisagens, consegui tecer mentalmente uma versão para os episódios narrados. E o que isso tem a ver com meu PREX?
Dante desceu aos Infernos, testemunhou as piores dores e provações, viu a aflição esperançosa do Purgatório e, por fim, chegou até o Céu. Conheceu a Justiça e a Bem-aventurança. Espero que assim aconteça comigo também, no decorrer deste trabalho.
Um seguidor deste naipe será, para mim, como a companhia segura que Dante teve de Virgílio, durante a jornada pelo Inferno e pelo Purgatório. Já posso começar minha fábula.

Cliente ou Clientes?

Ontem, mais uma vez, peguei a coragem que eu tinha e fui conversar com meu Coordenador. "Sem chorar, sem chorar", dizia a voz na minha cabeça. Não chorei.
Expliquei para ele a nossa situação - a resposta tardia de um cliente muito desejado. E resposta muito positiva, aliás. Já falei sobre isso em um artigo anterior. Enquanto eu falava, comecei a pensar em mais um artigo para o Blog, na terapia que o próprio coordenador me sugeriu (e que, desgraçadamente, ainda não comecei), no que iria acontecer no próximo capítulo de Tieta do Agreste, Pastora de Cabras, no meu material que eu tinha esquecido na agência, na conversa que eu teria com o sujeito da Unilever, enfim. Em milhões de coisas. Estava com medo da resposta do Coordenador e comecei a me enganar que eu estava muito distante dali.
Ele entendeu perfeitamente. Mesmo já tendo me preparado, me deu vontade de chorar de novo. De alegria. Depois de sofrer tanto, me sentir tão pequena e despreparada, parece que as coisas começaram a dar certo. As pessoas me entendem, os acasos me favorecem. Talvez seja (e deve ser) uma compensação pelo meu vale de lágrimas de há dias atrás.
"Vocês nem devem descartar o outro cliente agora. Poderiam continuar trabalhando com os dois", ele disse, e meu coração se acelerou. Depois de tanto desespero, dois clientes. Dois. Por isso, se alguém por aí está se sentindo perdido, repense. "Faça sua parte e confie", era o que todos me diziam quando eu arrancava metade do cabelo e roía as unhas até o tronco e chorava até ficar com dor de cabeça, e eu achava que eles só diziam aquilo por que estavam de fora, não entendiam meu sofrimento.
Agora, continuo achando que eles não entendiam meu sofrimento. Mas o conselho que me davam era o único possível. A vida sempre tem uma surpresa, escancare portas e janelas e verá.

Cantoria.

Vontade de cantoria. Muita vontade.
(Esqueço que os meus leitores potenciais provem de São Paulo. Mas, atualmente, mesmo no Nordeste, pouca gente sabe a que me refiro).
Então, explico: a cantoria é praticada pelos poetas repentistas e consiste em entoar, acompanhados pela viola, versos improvisados, sobre os mais diversos assuntos. Existem muitas variações de mote, com métricas diferentes, além de desafios, martelos (agalopados ou não), mourões, e por aí vai. Não vou tentar explicar um assunto que eu mesma não domino tanto.
Minha relação com a cantoria, com a tradição da viola nordestina, data dos meus primeiros meses de vida. Os poetas nordestinos não só improvisam, também compõe poemas cantados. Meu pai usava essas canções para me ninar.
Esta relação era tão forte que, ainda hoje, com vinte anos (preciso me acostumar com a idade nova), nas noites em que eu não consigo dormir, escuto a voz de Pai cantando "O Triste Adeus de um Nordestino" e "O Velhinho do Roçado". Cresci ouvindo os grandes poetas repentistas do Nordeste, depois de grande acompanhei Pai em vários festivais. Fosse ele um homem menos atarefado, não perderia um.
Não vou me estender nessa postagem. Mas vou enviá-la para Pai, ele vai ficar orgulhoso de saber (na realidade, já sabe) que a filha também valoriza e admira a cultura popular nordestina.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Café.

Bandeira tem uns versos ("Poema só para Jaime Ovalle") que contam como o poeta despertou em uma manhã escura, embora o dia já fosse alto (como diria minha mãe). Chovia uma daquelas chuvinhas inquietantes, "triste chuva de resignação", assim definiu ele mesmo.
Não, hoje, quando me levantei, não estava chovendo. Mas Ricardo já havia saído, a manhã já estava adiantada, e eu bebi o café que eu mesma preparei - exatamente como o poeta. Adoro acordar e fazer isso, sou fã de Bandeira e a nostalgia depois do café me faz pensar que, talvez, também ele tenha se sentido assim quando da composição desses versos. É pena que, agora, com as preocupações infalíveis trazidas pelo PREX, eu tenha tão poucos desses momentos.
A seguir, brindo-vos com a transcrição do poema inteiro:


"Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei".




Manuel, Manuel... Será esse mesmo o nome?

Cliente

A semana que antecedeu a entrega do Pré-Projeto foi a pior da minha vida. Eu já conseguia enxergar a minha reprovação. Aliás, confesso que era só nisso que eu pensava.
Até agora, o "Diário de um PREX" não revelou nomes nem procedências. Pois vai continuar assim, este artigo é uma exceção.
Meu grupo tinha como cliente Lipton Ice Tea. Chá gelado, um mercado em expansão, um produto ainda não muito conhecido. Assim, sem pensar, não posso dizer até que ponto tudo isso nos seria favorável. Talvez, nem fosse favorável.
O fato é que a Lipton, aqui no Brasil, é controlada pela AmBev. Não fosse a intervenção miraculosa de um aluno da nossa faculdade (de outro campus, entretanto), nós nunca teríamos conseguido sequer a assinatura da Carta de Aceite. A situação, evidentemente, estava preocupante (para mim, então, desesperadora): a assinatura da tal carta é muito pouco, comparada à todas as informações de que precisamos. A dificuldade que encontramos para conseguir falar direto com o cliente prenunciava meus sofrimentos (que eu já estou amargando por antecipação).
Então, após a entrega de um Pré-Projeto defasado, obtivemos resposta positiva (muito positiva, eu diria) da Ades - um parceiro que desejamos desde o princípio, mas que não tínhamos mais esperança de conseguir. Pela primeira vez, desde que eu comecei este trabalho, eu senti que alguém (à exceção dos meus pais, dos meus colegas e dos meus professores) se importava com a minha situação. Que alguém entendia pelo que eu estava passando e conhecia o gosto de se saber insignificante.
E, agora, eu não tenho certeza se meu coordenador vai deixar meu grupo mudar de cliente. Mesmo com todas as vantagens (e são muitas) que a Ades oferece. Mais uma vez, fiquei a noite inteira rolando de lá pra cá. Hoje, vamos falar com ele. Ou, talvez, amanhã - assim, já poderemos levar a carta de aceite assinada. Espero que ele nos entenda, também já deve ter passado por situações semelhantes.
Amanhã (ou depois), teremos grandes novidades neste Blog.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Procura;

Pai, parece que eu pisquei e, quando abri os olhos, você já tinha ido embora. E eu voltei à mesma vida, encontrei os mesmos problemas, as mesmas preocupações e, infelizmente, não tenho certeza se posso achar coragem pra aguentar tudo isso longe de você.

Boa viagem, pai, que seu vôo não tenha turbulências, que seu lanche esteja bem quente, que o sertão esteja ainda mais bonito quando você descansar a vista na paisagem do Cariri.

P.S.: Minha primeira postagem com vinte anos, hein? Vinte!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Telefonia

Trrrrrrrm, trrrrrrrrrrm, trrrrrrrrrm.

Desperto atordoada na penumbra do quarto e me dou conta do celular vibrando sobre a mesinha de cabeceira.
-Droga de celular, qualquer dia me mata de susto.
Atendo:
-Oi, Mãezinha.
Do outro lado, a preocupação esfuziante da minha mãe:
-Bom dia, minha filha! Como é que está indo seu trabalho? Você está melhor? Mais calma? Está se alimentando direito? Você sabe o quanto sua mãe fica preocupada quando...
Preocupações despencam como uma tempestade na minha cabeça. Corto:
-Mãe, não quero mais falar sobre esse assunto.

Aconchegada no meu travesseirinho surrupiado da TAM, me preparo para submergir em mais um sono agitado e sem sonhos, desses que agora me reviram as noites, quando recebo mensagem de pai:

"Oi, Nega. Estou me organizando para ir aí te dar um abraço".
Começo a chorar antes de poder responder:

"Pai, não ouse chegar aqui sem trazer doce de leite. Já pedi para mãe fazer. Vou te esperar no aeroporto com uma colher na mão. E também já decidi o que vou querer de presente".
Se meu pai não viesse, talvez eu nem me lembrasse que o meu aniversário já é dia quatro. Será que esse trabalho termina um dia, meu Deus?

Terapia?

Antes seja olvido que omissão. Não lembro mais com certeza, mas acho que foram mais ou menos esses os termos que Bentinho empregou para iniciar um dos capítulos do Dom Casmurro.
Na postagem anterior, esqueci de mencionar um trecho importante da minha entrevista com o Coordenador. Por isso, lembrei da frase machadiana e voltei aqui para complementar o relato.
Quando eu consegui estancar a torrente de palavras, ditas a muito custo, devido à tremedeira do lábio inferior (o que, em mim, representa forte indício de choro sincero), meu coordenador disse:
- Passa lá na Agência, depois. Pega o telefone da Terapia e marca uma avaliação. Você precisa.

Pois é, ele falou assim. Eu? Terapia? Pra quê?
Vou ligar amanhã mesmo.

Confesso que não esperava que o PREX me trouxesse revelações dessa natureza.

Conversa.

Leitores! (Claro que é apenas uma hipótese. Não sei se tenho leitores).
Há dias, reuni a coragem que julguei suficiente para ir falar com meu coordenador. Como veremos, a miséria de coragem que eu juntei não deu pra nada. Cheguei à faculdade e caminhei até a sala dele, desejando uma só coisa - algo incerto que continuo desconhecendo.
Eu tencionava ter uma conversa normal. Já tinha feito o script). Mas a verdade é que eu afrouxei. Quem diria, hein? Na frente do meu coordenador!
O quanto me permitiam os soluços e aquela coisa ruim na garganta, falei sobre as minhas dúvidas, a chateação, a ansiedade e, maior do que tudo, tragando tudo, o medo. O medo do PREX.
Não me venha dizer que eu só preciso dar o melhor de mim e ficar sossegada. SOSSEGO? Eu não quero ouvir falar em sossego! Prefiro motivos mais condizentes com a minha situação - as pragas do Egito, o choro e o ranger de dentes do Juízo Final, as provações de Jó, a miséria de Lázaro, a dor de Marta e Maria pela morte do irmão (quantas evocações bíblicas! Recentemente, li "Caim", de José Saramago, e "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski. Está explicado).
Meu coordenador me ouviu com paciência, sabendo que o meu problema era macroambiental (finalmente, um termo técnico!). Ser reprovada é um risco que você corre desde que começou a estudar, ele me replicou, e não deve se apegar a isto.
- Você não sabe lidar com a perda, é fato. E está canalizando todas as suas expectativas para o PREX.
Olhei rapidamente para ele, sem poder enxergar direito através dos olhos anuviados. Queria ter dito "Parabéns, professor. Sua conclusão foi precisa". Mas não queria me expor mais, o choro, a confissão da fraqueza, a exposição da minhas misérias (mesmo para uma figura a quem eu sei que devo satisfações) já me pareciam suficientes. Além disso, eu não conseguia segurar as lágrimas, não sei de onde tirei tantas. Depois, ele fez surgir um saco balas de goma e me obrigou a aceitá-las. Não sei como me atrevi: choro - copiosamente - as pitangas para o indivíduo (que, aliás, nada tem a ver com as benditas pitangas), e, de uma hora pra outra, tomo liberdades assim, pergunto se ele também gosta de balas de goma, subtraio do pacote só as minhas preferidas, mastigo-as com as lágrimas retardatárias ainda caindo dos olhos. Estou visivelmente desequilibrada.
Para encerrar o relato, quero registrar que meu coordenador, ciente do meu drama, disse que, se eu continuar assim, ele será obrigado a me reprovar. Se eu aprovo seu trabalho, disse, sua vida vai perder o sentido. Nesse momento, eu, que já havia mesmo perdido toda a compostura diante das balas de goma, me permiti uma risada discreta.
Confesso que, depois desta conversa, fiquei mais aliviada. Só um pouco - eu não me permito tranqüilidade.
Voltei a roer vorazmente as unhas. Deixei de escovar o cabelo. Não queria deixar de ser consumista, mas temo que também este hábito seja tragado pelo PREX. Há dias não abro as newsletters da Loja Melissa e sequer fui até a MOP ver os modelos que já estão na pré-venda.
Queria poder avançar no tempo e saber até quando esta angústia vai durar.